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Redes Sociais

Nos últimos anos, as redes sociais têm induzido alterações no estilo de vida quotidiano, sobretudo na forma como os indivíduos interagem e comunicam entre si (1)..

As redes sociais definem-se como um conjunto de plataformas e aplicações digitais que permitem aos utilizadores criar, partilhar e interagir com conteúdos online. Algumas das características comuns incluem o perfil de utilizador, a criação e partilha de conteúdos, a interação entre utilizadores e a criação de uma comunidade social. Como exemplos de redes sociais comumente utilizadas a nível global destacam-se o Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn, TikTok, YouTube e o Pinterest (1,2).

Redes sociais e hábitos alimentares

Vantagens e desvantagens do uso das redes sociais

As redes sociais são consideradas como um meio de comunicação e interação social, através do uso de recursos tecnológicos e internet. Ainda, proporcionam ao utilizador a capacidade de se conectar à distância a indivíduos, grupos ou organizações, promovendo a partilha interativa e instantânea de informação (1).

A evidência científica tem enaltecido a ocorrência de alterações na dinâmica das interações sociais devido ao uso, por vezes em demasia, das redes sociais. O uso destas plataformas como meio de comunicação exclusivo pode promover o isolamento social, prejudicando a capacidade de comunicação e o desenvolvimento de relações profundas. Este fenómeno ilustra o paradoxo moderno de que os indivíduos se encontram cada vez mais conectados virtualmente, mas a intimidade e a proximidade inerente às interações presenciais estão a ser substituídas por uma comunicação online e superficial. Simultaneamente, existe uma crescente preocupação inerente à partilha criteriosa de informação. Os utilizadores são expostos a conteúdos que se encontram em conformidade com os seus valores e crenças pessoais, o que pode desencadear um efeito reforçado de visões pré-existentes. O uso das redes sociais, como um meio de controlo na construção e apresentação de um perfil pessoal, pode causar distorções no desenvolvimento da personalidade, da autoestima e na perceção do indivíduo sobre a identidade do seu semelhante e da sociedade. Ainda, a exigência para o reconhecimento e validação por terceiros tem desencadeado sentimentos de insatisfação e inadequação que, a longo prazo, potenciam um quadro de distress psicológico (1).

Uso das Redes Sociais na população portuguesa

Os jovens adultos (18 aos 25 anos) ocupam cerca de 11 a 12 horas do seu dia nas redes sociais, comparativamente a outra atividade. Esta tendência reflete a perceção dos jovens adultos ao encararem as redes sociais como meios de interação social. Neste sentido, as plataformas sociais têm desenvolvido diferentes tipos de interação e comunicação. A captura de imagens é o recurso mais prevalente, sendo que 79% dos jovens reportam partilharem fotografias online (2).

O estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, desenvolvido pela Marktest em julho de 2023, teve como objetivo averiguar os índices de notoriedade, utilização, opinião e hábitos dos portugueses nas redes sociais. Segundo o mesmo, na população portuguesa, o TikTok é a 4ª rede com maior notoriedade espontânea, o Instagram é a rede social mais utilizada e cerca de 85% dos utilizadores seguem figuras públicas nos seus perfis pessoais (3).

Influência das Redes Sociais nos Hábitos Alimentares

A tecnologia e as redes sociais têm-se revelado promissoras na modificação da perceção, atitudes e crenças associadas aos hábitos e comportamentos alimentares. Vários estudos sugerem que estes impactam diretamente as escolhas e comportamentos alimentares, dado que são parte integrante da experiência psicossocial do indivíduo (2,3).

estudo (2), que pretendeu identificar a perceção da influência das redes sociais nos hábitos de saúde em jovens adultos (18 a 25 anos; N = 34), concluiu que o uso das redes sociais está associado a uma maior distração no consumo alimentar durante as refeições e a piores escolhas alimentares. Segundo os participantes inquiridos, os indivíduos utilizam os seus dispositivos tecnológicos durante os momentos de refeição, sendo este cenário mais recorrente em casa do que num restaurante. Ainda, os autores verificaram que os participantes utilizam as redes sociais como fonte de informação relacionada com a alimentação. Os participantes relatam que as suas escolhas alimentares são influenciadas por receitas encontradas nestas plataformas e por publicações feitas pelos seus pares. Referem também que, quando visionadas, estas podem induzir uma sensação aparente de fome, induzindo-os a consumirem alimentos sem necessidade fisiológica. Contudo, dado o baixo número de indivíduos amostrados, toma-se precaução na generalização das conclusões deste estudo para a população jovem adulta.

Indústria e marketing alimentar

A indústria alimentar utiliza as redes sociais como meio de comunicação direta com o consumidor. Este tipo de contacto possibilita a deteção do grau de insatisfação ou de entusiasmo em relação ao produto publicitado, com visa a desenvolver uma estratégia de marketing ajustada ao perfil do consumidor (3). Em prol da eficácia das redes sociais na disseminação de informação relacionada com a saúde e alimentação, o marketing alimentar tem a capacidade de promover padrões alimentares pouco saudáveis, sobretudo nos indivíduos mais jovens (4).

Produtos ultraprocessados, ricos em gordura, açúcar, sal e de baixa densidade nutricional, e cujo consumo elevado está associado ao aumento da prevalência de obesidade, são os mais publicitados nas redes sociais. A literatura refere que um aumento da exposição a anúncios de produtos fast-food está associado a um maior consumo destes em adultos. Por outro lado, a mensagem transmitida por estes meios de comunicação de que indivíduos magros representam o padrão de beleza, pode contribuir para o desenvolvimento de distúrbios alimentares em indivíduos mais jovens (4,5)

Estudos da área da psicologia indicam que o marketing alimentar visa induzir a perceção individual de que o produto anunciado é amplamente consumido na sociedade, resultando numa resposta emocional positiva. A exposição frequente e/ou prolongada a anúncios publicitários de produtos alimentícios, sobretudo em indivíduos mais jovens, potencia a capacidade de memória do produto e contribui para o estabelecimento de uma resposta emocional positiva, aumentando o desejo da sua compra e consumo (6).

Ainda, quando os anúncios publicitários incluem a presença de uma figura pública, preferencialmente admirada pela população alvo, é observado um aumento na preferência pelo produto publicitado. Independentemente no valor nutricional do produto alimentício, aqueles que manifestam maior admiração pela figura pública, reportam maior desejo em obter o produto publicitado, sendo as crianças e os adolescentes os grupos mais suscetíveis. Esta influencia não é só exclusiva a figuras públicas pois, como mencionado no estudo (2), também a exposição de publicações feitas pelos pares desempenha um papel determinante nas escolhas e comportamentos alimentares dos indivíduos (6).

Bibliografia

  1. Azzaakiyyah HK. The Impact of Social Media Use on Social Interaction in Contemporary Society. Technology and Society Perspectives (TACIT). 2023 Aug 31;1(1):1–9.
  2. Vaterlaus JM, Patten E V., Roche C, Young JA. Gettinghealthy: The perceived influence of social media on young adult health behaviors. Comput Human Behav. 2015;45:151–7.
  3. Marktest Consulting. Análise sobre o comportamento dos portugueses nas redes sociais. Lisboa; 2023.
  4. Molenaar A, Saw WY, Brennan L, Reid M, Lim MSC, McCaffrey TA. Effects of advertising: A qualitative analysis of young adults’ engagement with social media about food. Nutrients. 2021 Jun 1;13(6).
  5. Programa Nacional de Saúde Escolar. Marketing Alimentar ou Influenciar Quem Come [Internet]. Porto; 2015 [cited 2023 Dec 17]. Available from: https://passe.com.pt/
  6. Kucharczuk AJ, Oliver TL, Dowdell EB. Social media’s influence on adolescents′ food choices: A mixed studies systematic literature review. Vol. 168, Appetite. Academic Press; 2022.