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Atualmente, a saúde mental e a Dieta Mediterrânica (DM) têm adquirido relevância na sociedade ocidental. Pela importância destas duas temáticas, no âmbito da unidade curricular Nutrição Humana do curso de Dietética e Nutrição da ESS-UAlg, foi feita uma análise crítica do artigo Mediterranean Diet Adherence and Subjective Well-Being in a Sample of Portuguese Adults.

Introdução

Considero a introdução do artigo bem organizada, fundamentada com base em literatura científica pertinente e atual, e focalizada nos principais conceitos que ilustram o objetivo do estudo e suportam a relevância do mesmo. Verifica-se que os autores estruturaram a introdução em quatro parágrafos com temáticas distintas.

O primeiro parágrafo define o conceito “Dieta Mediterrânica”. De forma concisa, afirmam que esta denota a partilha hereditária da individualidade cultural e alimentar dos países que rodeiam a Bacia do Mar Mediterrâneo. Referem o Estudo dos 7 Países, listam os alimentos característicos da alimentação mediterrânica, enaltecem o reconhecimento da DM como património cultural e imaterial da humanidade pela UNESCO e, por fim, fazem menção à pirâmide da DM, como um guia para o modo de vida das populações mediterrânicas. 

No segundo parágrafo, os autores citam a definição de Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), o que considero pertinente para a definição de Bem-estar. Segundo a literatura encontrada pelos autores, o Bem-estar integra fatores sociais e ambientais, além de considerar a avaliação subjetiva do individuo sobre o seu bem-estar (SWB). Assim, os autores referem que o SWB é uma construção do foro psicológico que remete para um estado mental positivo associado à experiência de vida do indivíduo. Ainda, esclarecem ao leitor que a avaliação dos SWB é feita mediante fatores psicológicos de dimensão hedónica (satisfação geral da vida e componente afetiva) e de dimensão eudemónica (propósito e sentido atribuído à vida). Enalteço a importância de esclarecer estes conceitos inerentes à saúde mental que, na grande maioria, são desprezados e subvalorizados. A saúde mental apresenta parâmetros que são possíveis de quantificar, o que significa que a mesma não é uma mera ideologia abstrata sem fundamento científico.

O terceiro parágrafo é, na minha opinião, o que mais enriquece a relevância deste estudo. Os autores procuram corroborar, com base em literatura científica atual, a existência de uma relação entre a adesão à DM e o SWB. Os autores referem um estudo nacional que verifica que o consumo predominante de carne está associado a uma maior frequência de sintomas depressivos, quando comparado com padrões alimentares onde predominam frutas e vegetais. O facto de terem encontrado um estudo realizado em Portugal, que verifica a associação entre hábitos alimentares e parâmetros inerentes à saúde mental, aumenta a relevância deste estudo.

No parágrafo final, os autores clarificam o objetivo do estudo, o qual pretende avaliar a adesão à DM através de uma metodologia validada, o índice MEDAS, e averiguar a existência de uma relação entre a DM e o SWB na amostra em estudo.

Materiais e métodos

Os Materiais e Métodos do estudo foram divididos em 3 tópicos: o Desenho Experimental e Ética, Recolha de Dados e Análise de Dados.

No Desenho Experimental, os autores apresentam a metodologia utilizada, a qual foi aceite pelo comité de ética da Unidade de Investigação do Instituto de Santarém. Neste tópico indicam que conceberam o estudo para avaliar a adesão à DM, através do índice MEDAS, os fatores do estilo de vida e o SWB. Referem que elaboraram um questionário no Google Forms para efeitos de recolha de dados, divulgado através de plataformas online entre Maio e Dezembro de 2019.

Um aspeto importante que deve ser explícito em qualquer estudo científico são as características da amostra em estudo. Como verificado, os autores indicam que os participantes envolvidos provêm da região de Lisboa e Alentejo, são adultos de nacionalidade portuguesa e residentes em Portugal. Indicam também que, dos 505 participantes, e após a verificação do cumprimento dos parâmetros de elegibilidade dos participantes, apenas 490 foram aceites. Com estas informações, questiono se a área geográfica onde recolherem os dados é representativa da população portuguesa, a qual considero que não, visto não considerarem indivíduos provenientes do Norte e do Sul de Portugal. Ainda, será o número de indivíduos em estudo representativo da população portuguesa, sendo que esta, segundo dados de 2021 da Pordata, é composta por 10,3 milhões de portugueses, com 87% de idade superior a 15 anos (4)? Com base nestas informações, considero que a amostragem foi pequena e restrita às regiões de Lisboa e Alentejo, o que não confere representatividade à população portuguesa adulta.

Na Recolha de Dados, os autores referem que o questionário, desenvolvido no âmbito de um projeto internacional, é composto por 57 questões sobre dados sociodemográficos, perceção de bem-estar, estado de saúde, estilo de vida e hábitos alimentares. Ao longo do texto, verifica-se o cuidado na descrição das questões, o que considero bastante importante para uma melhor compreensão do estudo. Em momento algum, referem qual o tipo de estudo desenvolvido. Considero que poderiam ter indicado que se trata de um estudo observacional transversal.

Resultados

Os resultados do estudo foram organizados nos tópicos: Características sociodemográficas dos participantes; Adesão à DM, hábitos do estilo de vida e estado nutricional; SWB; Variáveis que influenciam a adesão à DM e exploração da relação entre a DM e o SWB. Considero que esta organização constitui uma forma pertinente de garantir uma melhor interpretação dos resultados. Cada tópico contém tabelas e gráficos que complementam a descrição dos resultados e permitem uma melhor interpretação.

Na Adesão à DMhábitos do estilo de vida e estado nutricional, pretendo enfatizar os dados que considero importantes à interpretação e discussão dos resultados. Na tabela 2, é nos apresentado a estimativa da adesão à DM pelo índice MEDA, no qual se obteve uma média de 7,4 pontos e uma mediana de 7 pontos. Os autores observaram diferenças significativas entre géneros, verificando que as mulheres apresentam uma adesão à DM superior à dos homens. Segundo os critérios definidos no estudo PREDIMED (5), os autores constataram que, aproximadamente, 17% dos participantes apresentam elevada adesão à DM, 63% apresentam moderada adesão e 20% apresentam baixa adesão. Foram também observadas diferenças significativas entre géneros no número de refeições diárias.

 

Relativamente ao SWB, os autores efetuaram uma análise agrupada, isto é, agruparam os participantes em 3 perfis de diferentes níveis de SWB: o perfil 1 (índice SWB = 8,1), perfil 2 (índice SWB = 6,2) e perfil 3 (índice SWB = 3,9). Deste modo, verificaram que mais de metade dos participantes estão incluídos no perfil 2. Na minha ótica, considero que esta forma de análise promove uma melhor compreensão dos resultados obtidos.

Nas Variáveis que influenciam a adesão à DM e exploração da relação entre a DM e o SWB, os autores verificaram que a pontuação mais baixa do índice MEDAS é atribuída ao perfil 3 e, por contraste, a pontuação mais alta é atribuída ao perfil 1 (figura 1).

Discussão e conclusão

A discussão do estudo é iniciada pela relevância deste na comunidade científica e na sociedade. Os autores consideram que, dada a escassez de dados de adesão à DM na população portuguesa adulta, cujos hábitos alimentares são provavelmente concordantes com os princípios alimentares da DM, e à falta de uma avaliação concreta do SWB, este estudo é uma mais valia para estas temáticas.

Ao longo da discussão, verifica-se que os autores suportaram, sempre que possível, as interpretações dos seus resultados com base em estudos análogos, recentes e fidedignos.

É possível diferenciar 7 parágrafos, o que enaltece e organiza a lógica deste estudo. Primeiramente, procedem à comparação dos resultados médios obtidos (n = 490, índice MEDAS = 7,4) com os resultados de outros estudos nacionais. Os autores verificaram que a média obtida no índice MEDAS foi inferior ao estudo cujo tamanho da amostra foi mais elevado, e semelhante aos estudos cujo tamanho da amostra foi mais baixo. Considero que as diferenças e semelhanças encontradas resultam da baixa amostragem, e creio que se a amostra fosse maior, o resultado teria sido diferente.

Seguidamente, compararam os resultados obtidos com os resultados de estudos realizados em países europeus e não europeus. Os estudos escolhidos incidem em Espanha, Grécia, Reino Unido e Coreia do Sul. Tal como os autores afirmam, as diferenças observadas no índice MEDAS entre o estudo em análise e os estudos realizados no Reino Unido e na Coreia do Sul, podem dever-se a diferenças entre hábitos alimentares.

Na discussão da associação entre a adesão à DM e os parâmetros sociodemográficos e socioeconómicos, e aos fatores do estilo de vida, os autores, novamente, citam outros estudos para suportar todas as interpretações. Como ponto positivo, enaltecem que, pela primeira vez, verificaram que uma elevada frequência de contacto com a natureza pode estar relacionada com uma elevada adesão à DM. Apelam, e concordo totalmente, que devem ser feitos estudos que fortifiquem esta associação, nomeadamente, estudos com uma amostra abrangente e de maior dimensão, que inclua indivíduos residentes em urbanizações e residentes em meios rurais.

Na discussão da associação entre a adesão à DM e o SWB, os autores procedem à comparação com resultados reportados pelo Centro de Estatística da União Europeia (EUROSTAT) (6), cuja fonte considero fidedigna e atualizada.

No fim da discussão, os autores refletem sobre as limitações e potencialidades do estudo. As limitações referidas incluem o baixo número de indivíduos e limitação geográfica da amostra. Indicam também que o auto-preenchimento do questionário pode resultar numa sobrevalorização dos hábitos alimentares. Referem que o desenho experimental foi concebido somente para averiguar a existência de associações, que pretendem descrever o comportamento de duas variáveis, ao invés de relações causais, ou seja, de verificar se uma variável é resultante de outra. Como potencialidades, os autores afirmam que o preenchimento do questionário num ambiente calmo e seguro, previne a distorção dos resultados sobre o SWB. Contudo, discordo com esta afirmação, pois creio que muitos possam ter sobrevalorizado o seu verdadeiro estado psicológico, por diversos motivos (vergonha, esquecimento, entre outros). Ainda, referem que as características utilizadas para eleger os participantes do estudo são uma mais valia na prevenção de vieses relacionadas com as diferenças entre países na adesão à DM e no SWB. Concordo, em certa medida, com esta potencialidade, mas reforço que considero a amostra em estudo pouco representativa da população portuguesa, pelas razões anteriormente mencionadas.

A conclusão dá resposta ao objetivo definido e enaltece a importância deste estudo, afirmando que:

General health and mental wellness are intimately linked to healthy behaviours, with MD playing a central role as a multicomponent concept including healthy, sustainable food habits, and other lifestyle and social factors that impact on health and society.

Bibliografia consultada e referenciada

  1. Andrade V, Quarta S, Tagarro M, Miloseva L, Massaro M, Chervenkov M, et al. Exploring Hedonic and Eudemonic Items of Well-Being in Mediterranean and Non-Mediterranean Countries: Influence of Sociodemographic and Lifestyle Factors. Int J Environ Res Public Health. 2022 Feb 1;19(3).
  2. Moreno-Agostino D, Caballero FF, Martín-María N, Tyrovolas S, López-García P, Rodríguez-Artalejo F, et al. Mediterranean diet and wellbeing: evidence from a nationwide survey. Psychol Health. 2019 Mar 4;34(3):321–35.
  3. López-Olivares M, Mohatar-Barba M, Fernández-Gómez E, Enrique-Mirón C. Mediterranean diet and the emotional well-being of students of the campus of melilla (University of granada). Nutrients. 2020 Jun 1;12(6):1–12.
  4. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Pordata – Estatisticas de Portugal e Europa [Internet]. [cited 2022 Dec 3]. Available from: https://www.pordata.pt/portugal/populacao+residente+segundo+os+censos+total+e+por+grandes+grupos+etarios-512
  5. Martínez-González M, García-Arellano A, Toledo E, Salas-Salvadó J, Buil-Cosiales P, et al. A 14-Item Mediterranean Diet Assessment Tool and Obesity Indexes among High-Risk Subjects: The PREDIMED Trial. PLOS ONE. 2012;7(8).
  6. Eurostat. Subjective Well-Being—Statistics [Internet]. [cited 2022 Dec 5]. Available from: https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Subjective_well-being_-_statistics